Um pouco de possível, senão sufoco. - Michel Foucault

Ataque surpresa a blog

2009 November 19
por Thalles Waichert

Pode não ter sido ordem judicial, mas mais um blog saiu do ar por esses dias. O blogueiro Augusto da Fonseca se surpreendeu com a retirada do Festival de Besteiras na Imprensa do ar. Hospedado no blogspot, entrou logo em contato para tirar satisfações com o Google do motivo da suspensão do serviço:

Esta conta foi desativada e não conseguimos recuperá-la. Na maioria dos casos, as contas são desativadas por terem violado os Termos de Serviço do Google, disponíveis em http://www.google.com/terms_of_service.html, ou os Termos de Serviço específicos do produto. O Google reserva-se o direito de: [...] #mimimi (Comentário publicado em post do Vi o mundo)

Nessa hora bate a famosa tela azul na cabeça do sujeito. “O que raios eu postei que pudesse infringir os termos de serviço do Google?”. Pensa, pensa, pensa e nada. Conduta mais lógica: vou enviar um email para o Google exigindo maiores explicações. Agora já não é tela azul. É pane geral mesmo. Augusto tenta logar em seu email e… nada. Senha errada. Senha errada. Diabos!

Depois de muita reflexão, cheguei ao que considero a hipótese mais provável, para a retirada do ar do blog FBI, que é a seguinte:

1. Alguém pagou/pediu ao um hacker que quebrasse a minha senha do gmail. Meu e-mail é augustodafonseca13@gmail.com

2. Isso aconteceu logo após eu sair do ar, por volta de meia noite e meia, que foi meu último acesso, onde constatei ter 1.204 IPs de acesso (graças à tua publicação do post sobre o Rodoanel)

3. Esse hacker após quebrar a minha senha entrou no meu site de e-mail e trocou a senha. Por isso não consigo mais acessar meu site de e-mail do Gmail.

4. Após, postou um ou mais textos que flagrantemente quebram os termos de violação (ou o nome que tenha), fazendo com que o Google tirasse o blog do ar.

5. Se o Google enviou msg para o meu e-mail, é óbvio que ela não chegou a mim, mas ao hacker.

(Comentário publicado em post do Vi o mundo)

E aí? O que se faz numa hora dessas? Em se tratando de blogs, grita e pede socorro. O blogueiro Luiz Carlos Azenha (Vi o mundo) atendeu o chamado de socorro e já divulgou prontamente um post relatando o ocorrido com o colega de blogroll. Na sequência, resta criar um novo blog e, com ajuda de uma rede já consolidada, continuar o trabalho.

Menos de 24 horas após minha conta do Gmail ter sido violada e o blog ter sido removido, sem explicações, pelo Google, retomo o Blog FBI – Festival de Besteiras na Imprensa, aqui no WordPress, na esperança de que seja mais seguro e que tenha um atendimento mais civilizado. (Post de retorno do FBI)

Pensei muito antes de adicionar esse caso a minha amostra do Justiça manda tirar…, mas por via das dúvidas é bom ficar de olho aberto e ver se vai ter desdobramento da história. Se a invasão for realmente confirmada, completarei a história em breve.

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Justiça censura blogueiros em Cuiabá

2009 November 17
por Thalles Waichert

logoOs blogueiros Adriana Vandoni (Prosa e Política) e Enock Cavalcantti (Página do E) receberam um presentinho antecipado de natal do senhor juiz Pedro Sakamoto: para de falar mal do deputado ou mando todo mundo pro xilindró! O referido juiz sentencia:

Os blogueiros devem se abster “de emitir opiniões pessoais pelas quais atribuam àquele (deputado JOSÉ RIVA [PP]) a prática de crime, sem que haja decisão judicial com trânsito em julgado que confirme a acusação, sob pena de multa de R$ 1.000,00 por ato de desrespeito a esta decisão e posterior ordem de exclusão da notícia ou opinião”.

Nada de novo até aqui. Mesmo lenga-lenga de sempre: vem um doutor fulano de tal que não entende nada de Internet e acha um absurdo que um zé ninguém anda falando mal dele por aí. Daí o doutor, se sentindo doído, aproveita todo o estatuto político que lhe convém (nesse caso, presidente da assembléia) para linchar em praça pública esses difamadores da Internet. E a estorinha continua: todo mundo fica p da vida e começam a falar mal de um deputado que nunca ninguém viu mais gordo (inclusive eu). Moral da história: não me venha dizer o que eu posso e o que não posso falar porque quem sai mal falado é o reclamão. Rende novo roteiro para um núcleo da novela das oito…

Mas se por um lado a história se repete, por outro novos ingredientes vão sendo gradativamente adicionados:

“Todo excesso deve ser combatido”, declarou o deputado. “A notícia pode ser publicada, mas dentro do limite da notícia. Não tenho condenação com trânsito em julgado. Em que pese os processos, ela (Adriana) não tem direito de emitir opiniões jocosas e agressivas contra a minha pessoa. Fiz o que devia fazer para acabar com exageros. Ser questionado na Justiça tudo bem, mas não é justo que a imprensa condene você.”

Misturou tudo. Discurso jurídico, notícia e post de blog. Daí trata blog como imprensa, imprensa como tribunal e tribunal como palanque. Teve quem, assim como nós, também não aprovou a medida do dotô deputado:

“Fatos como esse [...] só demonstram que temos que caminhar muito para que tenhamos uma democracia não só formal, mas sobretudo material”, alerta o procurador da República Pedro Taques. “A decisão viola princípios constitucionais.”

Para mais informações sobre o caso sugiro acompanhar os blogs dos próprios censurados. Enock postou em seu blog o discurso do senador Arthur Virgílio repudiando a decisão da justiça. E no blog da Adriana dá pra acompanhar as repercussões através da tag censura.

Essa vai pra série “Justiça manda tirar…

Nota de fim: créditos para o Estadão pela boa matéria e para o Coturno Noturno, blog onde me deparei com o absurdo.

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Vamos do começo: que raios é um blog?

2009 November 12
por Thalles Waichert

Não quero chutar areia na fogueira dos outros – mesmo que eu tenha certeza que vem ler esse blog nunca se surpreende quando faço isso -, mas estou ficando cada vez mais confuso quanto ao que é um blog. Olha, deixa eu jogar na cara: dois anos de pesquisa, dois anos de blogueiro e a organização do BlogcampES 2009. E eu paro, olho em volta, olho minha lista de feeds, olho minha timeline no Twitter, entro em alguns portais, alguns sites, alguns blogs e, epa! parece que estão usando o termo blog para tudo que tenha ordem cronologicamente invertida. Tô ficando cafuso.

Há algum tempo me inquietava o uso do termo blog para colunas opinativas nos jornalões, mas até aí eu acho aceitável e cabível o uso do termo. Fico pensando mesmo que tipo de enunciado o discurso “eu tenho um blog” produz. E já sinto começar com o pé esquerdo quando submeto o meu enunciado ao singular. Quais enunciados, então, o blog produz? Já vi bastante coisa por aí: diarinho, comunidade de download, centro de tutoriais, coluna de opinião… tudo que, a priori, utiliza o diálogo como pressuposto mínimo de execução. Mas parece que o modus operandi se inverteu; o diálogo, a conversação, parece não ser mais o mínimo necessário para a existência de um blog, mas, ao contrário, se constitui como um objetivo a ser alcançado através de uma busca incessante.

Parece, então, uma tentativa de adaptar o desafio dos mass media “como fazê-los prestarem atenção em mim?” para “como fazê-los falarem de mim?”. Claro, minha preocupação aqui não é com a forma como as campanhas de marketing, as estratégias de comunicação são traçadas, mas com os novos contornos que a palavra blog vai ganhando com isso. Em outras palavras, a preocupação que blog vire sinônimo de diálogo ao invés do oposto (diálogo como sinônimo de blog).

Vamos para a parte prática da coisa. A Hortifrutti teve seu site reformulado pela 4Ps e, apesar da boa aparência do site, adicionaram um blog cujo propósito eu não entendi: parece uma coluna editorial, um informe ou qualquer coisa do gênero. Para mim isso é algo chato. Parece o sonho de todo assessor de imprensa: ter todos seus releases publicados quando ele bem entender e com o enfoque que ele quiser. Oras, logo de cara já pensei “porque não colocar um blog de uma nutricionista ao invés desse blog/espaço editorial?”. O problema é pensar como portal! Não pode! Quer criar um blog para o seu site/empresa? Então tem que pensar na audiência sempre para fora, nunca para dentro. O blog deve ter vida para além da empresa, para além do site. Fica a dica pro pessoal da 4Ps e nem cobrei consultoria… deveria, pois estou desempregado.

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… senão sufoco

2009 November 10

Voltemos, então, a um ponto demasiadamente cedo abandonado. Ali no topo do blog, como podem ver, há uma pequena mudança retrógrada no que diz respeito a linha do tempo; mas, sem sombra de dúvida, progressiva num ponto de vista mais pessoal. Essa frase sempre fez com que me remexesse na cadeira: um pouco de possível, senão sufoco. Me colocava a pensar o que leva Foucault, no alto de sua produtividade e genialidade, enunciar uma frase como essa. Sim, pois não se trata de uma fala desproposital; trata-se de um enunciado muito bem articulado… palavra a palavra. Mas não é sobre a inquietação de Foucault que gostaria de escrever; tenho certeza que ela ainda me renderá muitos posts e muitas horas de reflexão.

Gostaria de me situar no enunciado foucaultiano como se ele partisse de mim, guardada as proporções, claro. Falo agora abertamente que a reprovação no mestrado de comunicação da UFRJ mexeu muito mais comigo do que eu esperava. Confesso também que, como alguns de meus amigos, me surpreendi com o resultado que me colocou diante de um impasse gradativamente mais assustador. Eis o primeiro e mais simples (ou nem tanto): como me sustentar? Embora tenha construído um curriculum que desperta admiração em muitas pessoas, de longe não é o que as empresas buscam (mesmo as voltadas para o meu ramo de atuação). Ainda há um segundo agravante: meu desejo produtivo parece estar todo direcionado para o ensino; repito o que já disse aqui tempos atrás de uma forma melhor elaborada: não me vejo totalmente satisfeito no campo profissional se não for dentro de um sala de aula, seja como aluno, seja como professor. Os meus truques de sedução não encantam as empresas…

Sempre senti uma sensação indescritível quando tive boas idéias e, durante minha adolescência, me iludiram dizendo que sou criativo e escrevo bem. Fiz jornalismo e descobri após quatro anos de curso que não gosto do texto jornalístico, embora minha segunda descoberta foi que eu realmente gosto muito de escrever. E nesse ponto as empresas chegam a virar o nariz para mim. Começa assim: 1) pesquisas em cibercultura e blogosfera: hum… bom isso! revela que você é inovador, criativo e produz algo nunca antes feito; 2) você quer ser professor? hum… beleza; 3) você gosta de internet e de escrever? mas não te falaram que internet é algo puramente visual? quem trabalha com internet é design, publicitário, programador… não jornalista!!

Nesse ponto volta Thalles para casa, sempre com o rabo entre as pernas, para jogar frases soltas no Google. Dentre uma dessas buscas encontrei uma oportunidade que esteve sempre aqui ao lado e nunca vi. Segue um trecho do que me fez pensar “um pouco de possível, senão sufoco” aplicado na minha própria vidinha banal:

Dizemos que as palavras representam as coisas. De um lado, concebemos um real-mundo como “coisa” e, de outro, a linguagem-signo como “palavra”, instância representativa em relação direta de correspondência simbólica com a primeira. As palavras existem naquilo que nos dizem das coisas. [...] A questão que deve guiar-nos é, portanto, do estatuto da linguagem e do pensamento: como fazê-los escapar da forma da representação e estabelecer com o real um cruzamento que não seja mais de filiação, conformidade ou correspondência?

Trecho extraído da tese de doutorado de Júlia Almeida: Pragmática e Agramatical em Deleuze

As perguntas vão se desdobrando na minha cabeça feito uma inquietante obsessão: como voltar nosso olhar para a blogosfera buscando sua legitimidade enquanto corpo autônomo? Que enunciados ela produz que a conferem esse estatuto? Como escapar dos paralelismos comparativos blogosfera-mídia, blogosfera-literária, blogosfera-política e encontrar seu sentido próprio? São questões que me direcionam ao que tenho buscado: uma alternativa, um possível…

Mas ainda busco emprego, pois não tenho bolsa nem de IC mais…

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Fim de uma empreitada

2009 October 27
por Thalles Waichert

Relutei um pouco a me levantar da cama. Um dia após o outro, completam-se seis dias levantando de alguma forma mau humorado. Não se trata de um chifre nem de dor de cotovelo… prometi que postaria aqui o resultado da minha empreitada rumo ao mestrado, iniciada a dois anos atrás praticamente junto com esse blog. De forma curta e grossa poderia dizer que não passei, mas a roupa molhada pela chuva no varal não me irritaria tanto se fosse simplesmente isso. É questão de botar a bola no chão, respirar fundo e se preparar para o próximo ano. Mas não é assim.

Na primeira fase do mestrado (tentei na ECO/UFRJ) arranquei na frente com 9,5 na prova escrita. As pessoas me encontravam na rua dando os parabéns, mas eu não queria saber de parabéns – queria preparar um projeto irrecusável para a banca. Me isolei durante cinco dias para escrever e consegui chegar a algum resultado. Com ajuda de Fábio Malini, que foi meu orientador durante esses dois anos, cheguei a um projeto sobre os investimentos coercitivos na liberdade de expressão na blogosfera por parte de instâncias legítimas de poder e as dinâmicas de resistências contra esse poder. Soava como um bom projeto. Nota: 6,0. Sem justificativa, sem avaliação. Sem nada que aponte para mim e diga: pecou em tal parte. Papos de corredor e conversas em off me levam ao ponto onde estou: decepção…

Não consigo pensar em fazer mestrado novamente. Pode ser que eu mude de idéia. Mas por ora não. Nesse trajeto recebi alguns eleogios de pessoas que admiro e é isso que guardo da empreitada. Agora, por falar em empreitada, alguém tem um emprego para um blogueiro que tentou ser pesquisador e não conseguiu? Antes deixava artigos científicos disponíveis para download. Agora acho que vou deixar o curriculum…

A parte do emprego é sério. O que vale um blogueiro sem seus contatos?

Em breve mudanças radicais no blog.. aguardem!

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Ali Kamel: liberdade é roubo

2009 October 8
por Thalles Waichert

Juro que me espanto ao me deparar com isso, mesmo sendo assinado por quem é:

Deixando de lado o fato de que é um poderosíssimo e insubstituível instrumento de intercomunicação (e-mail, mensagens instantâneas com imagem e voz, sites de relacionamento etc.), a grande riqueza da internet, em termos de conteúdo, é produzida pelas chamadas mídias tradicionais: jornais, revistas, rádio e televisão. Com um porém: tais mídias não recebem recurso financeiro algum em troca. Num fenômeno bem esquisito, dão o seu conteúdo de graça em seus próprios sites e são pirateadas sem constrangimentos por outros tantos sites.

Ali Kamel

Não resta dúvida que o cacique do jornalismo da Globinho não entende bulhufas da rede. Gostaria até de lançar uma desvelada ofensa recomendando-o a ler Sociedade em Rede de Manuel Castells para tentar se colocar a par da discussão antes de sair atirando pensamentos pré-concebidos por aí. Mas talvez ele já tenha lido até os mais recentes livros sobre o assunto: de Multidão a Linked, de Deleuze a Manovich… pois, com essa premissa, meu ataque fica mais incisivo: trata-se de ponto de vista.

O senhor Ali Kamel entra na rede defendendo seus conglomerados parceiros dizendo que “com o advento da interface gráfica da internet, em 1994, a mídia tradicional nunca temeu o novo meio. Acreditou que, se morresse ou declinasse no velho mundo, continuaria vigorosa e com saúde no novo mundo”. E segue lamentando a estratégia do conteúdo gratuito. Sei não, Ali, parece que você realmente não entendeu esse lance de conteúdo colaborativo e distribuição em rede. Não parece ser só questão de ponto de vista.

Olha só, cá estamos nós habitando e vitalizando esse sistema – ou seja, fornecendo nossa própria vida como combustível para essa carne viva – há anos. Vamos falar um pouco de história então. É tão sem sentido se lamentar de “roubo de conteúdo” na Internet! Digo isso tendo em vista duas frentes: uma no tocante a uma reestruturação da opinião pública, outra no que diz respeito a própria estrutura da rede. Vamos começar de trás pra frente. Pensa comigo: cá estou eu produzindo um texto e gostaria muito de ter audiência, de saber que meu texto está sendo lido, ser reconhecido como um bom escritor/blogueiro/redator/whatever e, enfim, conquistar alguma oportunidade graças a esse trabalho; pois bem, é uma forma de se produzir lucro na rede. Repare que entre meu produto final (uma grande oportunidade seja ela qual for) e meu pontapé inicial (esse texto) há alguns intermeios: o leitor, o blogueiro parceiro que irá replicar esse conteúdo em seu blog, um amigo que mandará um RT no Twitter após eu clicar em “publicar”, um espaço vazio de tempo no qual o texto poderá permanecer no ostracismo… bom, as variantes são incontroláveis. Como diz meu pai: filho se faz pro mundo; digo eu: informação também.

Nesse percurso o “lucro” se divide entre as partes envolvidas. O leitor é presenteado com um ponto de vista, um artigo que não conhecia (o do Ali Kamel), com o prazer da leitura; o blogueiro irá produzir conectividade: sua “audiência” se encontra com a minha e, feito dois conjutos matemáticos, perceberemos que temos leitores em comum, já os leitores que se diferem poderão ter acesso a uma nova fonte de informação E opinião. Até aqui lucramos eu, o blogueiro parceiro e o leitor. O mesmo se sucede ao amigo do Twitter e, veja bem Ali, até mesmo tu! Ou você acha que não to dando uma moralzinha pra ti falando e linkando teu artigo? Não seria muito mais conveniente deixar sua palavra cair no esquecimento? E repito a pergunta para os jornais e corporações midiáticas: não seria mais conveniente deixar você falando sozinhos? Preferem? Veja, a Google, como outras empresas, já sacaram qual é a do momento: o que o Youtube faz além de abir as portas para qualquer um colocar o que quiser e esperar a audiência crescer? E daí o nobre Ali ainda reclama que as pessoas preferem baixar séries ao invés de ver na TV, argumentando que, dessa forma, em poucos anos a TV não terá mais grana pra financiar esses investimentos. Opa, parece que ele esqueceu até da TV digital e da oferta on demand. Ixi.. parece que ele não sabe mesmo do que está falando!

Mas continuemos. Seguindo essa lógica de raciocínio eu diria que os verdadeiros vampiros são a trupe da Globinho e sua orda. Oras, se somos nós quem damos sentido e valor humano a informação que circula na rede, não estaríamos aceitando esmola quando dizem “olha, filho, pode ler essa notícia de graça, vai”. O problema é velho, a solução é velha: todos falam e todos produzem, então desce do palco, Ali! Gostaria de ver um boicote de dois meses contra todo grande portal de notícias da Internet: ninguém lê, ninguém replica. Seria engraçado eles perceberem na porrada que sem link a rede deles não cresce, sem rede em crescimento não há atenção e, se já tá difícil pra eles conseguirem anunciantes com atenção, imagine sem.

Sabe quando teu amigo pede pra dar uma passada no blog dele e dar uma moral? Daí você fica sem jeito de falar não e passa lá, deixa um comentário bobo e etc. O artigo do Ali Kamel sofre do mal inverso: megalomania.

a internet, por natureza, é um espaço sem dono, livre, democrático. Não é verdade: não existem terras de ninguém.

O que tem prevalecido é uma terra com novos donos que, até aqui, têm tido êxito em chamar de liberdade o que é puro roubo.

Vou ser simples e direto: atenção na rede se cria através de link. Não quer link? Não desce pro play e volta pra tinta no papel. Sem link, sem replicação não há produção de opinião na rede. A opinião necessariamente vai passar pelo processo de pós-filtragem de conteúdo, agregando valor ao material produzido pelos jornais. E a isso, o senhor Ali Kanel, chama de roubo.

Quer ler mais pedrada pra cima do Ali? Passe no Trezentos e de quebra se intere sobre a Conferência Nacional de Comunicação.

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Fica a saudade

2009 October 8
por Thalles Waichert

Fica a saudade. Eterna saudade de um companheiro; amigo ímpar que singularizou a vida de cada um por quem passou. Ontem pensava, entre outras coisas, que gostaria de ter ao menos dado um abraço. Pois bem, vendo esse vídeo que retrata bem o que foi essa pessoa magnífica, constatei que o abraço fora dado. Cervejas foram tomadas, conversas foram desfiadas. Nos divertimos. O que fica é o sorriso, o grito.

Restam clichês como conforto. Foi-me dito: nesse mundo caótico não há conforto para pessoas tão fodas. Ainda assim, fica a não aceitabilidade do fato. Perder um amigo não é fácil. Perder uma inspiração, pior ainda. Prefiro mesmo ficar com esse videozinho besta na lembrança: seu títpico sorriso; ao fundo, aplausos. Bravo, PC! Bravo!

Desculpe se assustei algumas pessoas com esse texto. Não é minha intenção.

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França reaça! Multa pra quem photoshopar foto

2009 September 26
por Thalles Waichert

A França parece estar se empenhando em ser um modelo a não se seguir no que diz respeito a novas tecnologias. Não bastasse o pioneirismo quase fascista com uma lei de cibercrimes completamente fora da realidade, agora o governo francês vai castigar quem não avisar que a foto é photoshopada: multa de até US$ 55 mil para quem publicar uma foto alterada no photoshop sem a legenda “Fotografia retocada para modificar a aparência física de uma pessoa”. Claro, na França não tem concurso de garota da laje, caso contrário a lei não colava!

Então muito cuidado ao pisar no hostil solo francês: qualquer um é capaz de provocar um desastre nacional em 5 minutos. Basta entrar na Internet por qualquer ponto público de acesso (se bem que Dani Mart esteve recentemente por lá e disse que é uma fortuna o acesso), mas bastaria entrar de qualquer ponto público e baixar uma música. Ou simplesmente… fazer isso:

Imagina a ira do governo francês se no mesmo post eu publicasse uma foto da primeira dama… fica a dúvida: com legenda ou sem legenda provocaria mais frissom?

Fotografia retocada para modificar a aparência física de uma pessoa

Fotografia retocada para modificar a aparência física de uma pessoa

E daí eu puxo a discussão também sobre o que é tratamento de imagem? Estamos falando só sobre pós-produção? Pois a forma como a luz é trabalhada em um estúdio também altera o resultado final. Sério, não vejo razão para uma lei como essa. Vamos nos remeter ao princípio do cinema colorido: pintava-se quadro a quadro; as cores estavam na realidade, ao contrário do preto e branco, mas as cores na película não eram o real. Qual o propósito então de se retratar sempre o real? Acaba-se caindo num campo muito perigoso: busca por pureza, uma noção que me lembra fascismo. Posso estar sendo exagerado, mas o fato é que a pós-produção é cada vez mais pensada como parte endógena do processo criativo do fotógrafo, ou seja, no ato da foto já é pensado um recorte que pode ser executado ou em uma correção de luz, cor e etc.

Mas estou falando de algo como amador (como quase tudo na minha vida). Chamo então o povo do Grupo de Foto pra conversa…

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Caravana midialivrista em Cachoeiro

2009 September 18

Recado rápido aos blogueiros, twitteiros, interneteiros, fotógrafos, produtores de mídia independente… enfim, midialivristas do sul:

header

Hoje e amanhã a São Camilo vai receber a caravana midialivrista com oficinas (eu vou dar uma oficina de blogs multimídia junto ao Eduardo Lucas) e show com a galera do Música Para Baixar (MPB). A programaçao completa você pode conferir acessando o blog do Mídia Livre.

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Desenhos, desejos e muitos nós

2009 September 18
por Thalles Waichert

Sei que devo muitos posts. Mas por um momento vou deixar essas dívidas de lado para falar de algumas linhas. Sempre acabo retomando algumas linhas. Blogueiro, ops, jornalista formado, me dedico agora a algumas itinerâncias. Estou envolvido com o projeto de oficinas de iniciação tecnológica do Omelete Marginal – o que me trouxe ao local de onde escrevo hoje, Cachoeiro do Itapemirim -, mas também envolvido na Caravana midilivrista do Lombarde, ops, Fábio Malini, o que por sua vez me levou a continuar em Cachoeiro por mais dois dias. Antes disso estive no Rio por conta da minha prova de mestrado lá na UFRJ (o resultado sai dia 29/09 e eu posto aqui). Antes ainda estive em São Mateus também envolvido com o Omelete Marginal. E Vitória, minha cidade-sede? Como fica? Fica de mudança: entre uma viagem e outra mudei de apartamento. Mea culpa feito. Fica mais compreensível a ausência de novos posts aqui. Gosto de trabalhar os textos, pensar cada detalhes e etc.

Mas algumas coisas ficam de todo esse movimento. São linhas, desenhos. Gosto de falar de conversas que tenho por aí. Numa dessas conversas o assunto foi o remapeamento de zonas, afetos, nomes, sons e etc. A palavra remapear já soa contraditória por si só. Não se mapeia uma cidade duas vezes, pois o segundo mapa será sempre diferente do primeiro. São novos mapas. Essas coisas me levam a mapear a estrada através de uma produção desejante; me fazem mapear uma cidade em outras zonas, organizar o espaço de uma forma que eu não estava habituado: andar feito louco. Mas principalmente me levam a fazer desenhos estranhos, cheio de pontas soltas por onde se pode começar e terminar qualquer coisa. Um devir? Não creio que chegue a tanto. Aposto na capacidade de se criar muitos de nós, mas isso não se trata de forma alguma de múltipla personalidade ou esquizofrenia (dependedo do conceito de esquizo, talvez, mas é melhor deixar isso de fora por ora).

O meu desenho parece um novelo de lã visto de vários ângulos; recortes de aproximações que dão a impressão de ora ver o novelo inteiro com todas suas pontas, ora parte dele com algumas ou nenhuma. Em um desses quadros (e isso se parece muito com uma colagem fotográfica) há três pontas: libido, afeto e uma terceira que não é possível identificar; apenas se sabe que ela possui uma cor diferente, gritante aos olhos e, talvez pela pincelada, talvez pela velocidade do obturador, ela é vibrante. Como tudo que vibra e grita, é irritante, mas desempenha sua função junto ao afeto e a libido. É preciso torná-los ligeiramente ásperos para não se anestesiar as faculdades sensoriais (olfato, audição, etc). Trata-se, pelo visto, de não deixar as pontas se desgastarem até virarem um só bolo sem forma. Sim, eu prefiro meu novelo de lã cheio de nós (muitos nós, muitos de nós) emaranhados a uma esfera lisa e brilhante. Resta então olhar os outros recortes da colagem, as outras pontas e dar um uso para isso tudo. Não enquadrar o desejo nos nós e pontas, nem as pontas e os nós nos desejos; mas fazer as curvas necessárias para puxar a linha do desejo até os nós.

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