Juro que me espanto ao me deparar com isso, mesmo sendo assinado por quem é:
Deixando de lado o fato de que é um poderosíssimo e insubstituível instrumento de intercomunicação (e-mail, mensagens instantâneas com imagem e voz, sites de relacionamento etc.), a grande riqueza da internet, em termos de conteúdo, é produzida pelas chamadas mídias tradicionais: jornais, revistas, rádio e televisão. Com um porém: tais mídias não recebem recurso financeiro algum em troca. Num fenômeno bem esquisito, dão o seu conteúdo de graça em seus próprios sites e são pirateadas sem constrangimentos por outros tantos sites.
Ali Kamel
Não resta dúvida que o cacique do jornalismo da Globinho não entende bulhufas da rede. Gostaria até de lançar uma desvelada ofensa recomendando-o a ler Sociedade em Rede de Manuel Castells para tentar se colocar a par da discussão antes de sair atirando pensamentos pré-concebidos por aí. Mas talvez ele já tenha lido até os mais recentes livros sobre o assunto: de Multidão a Linked, de Deleuze a Manovich… pois, com essa premissa, meu ataque fica mais incisivo: trata-se de ponto de vista.
O senhor Ali Kamel entra na rede defendendo seus conglomerados parceiros dizendo que “com o advento da interface gráfica da internet, em 1994, a mídia tradicional nunca temeu o novo meio. Acreditou que, se morresse ou declinasse no velho mundo, continuaria vigorosa e com saúde no novo mundo”. E segue lamentando a estratégia do conteúdo gratuito. Sei não, Ali, parece que você realmente não entendeu esse lance de conteúdo colaborativo e distribuição em rede. Não parece ser só questão de ponto de vista.
Olha só, cá estamos nós habitando e vitalizando esse sistema – ou seja, fornecendo nossa própria vida como combustível para essa carne viva – há anos. Vamos falar um pouco de história então. É tão sem sentido se lamentar de “roubo de conteúdo” na Internet! Digo isso tendo em vista duas frentes: uma no tocante a uma reestruturação da opinião pública, outra no que diz respeito a própria estrutura da rede. Vamos começar de trás pra frente. Pensa comigo: cá estou eu produzindo um texto e gostaria muito de ter audiência, de saber que meu texto está sendo lido, ser reconhecido como um bom escritor/blogueiro/redator/whatever e, enfim, conquistar alguma oportunidade graças a esse trabalho; pois bem, é uma forma de se produzir lucro na rede. Repare que entre meu produto final (uma grande oportunidade seja ela qual for) e meu pontapé inicial (esse texto) há alguns intermeios: o leitor, o blogueiro parceiro que irá replicar esse conteúdo em seu blog, um amigo que mandará um RT no Twitter após eu clicar em “publicar”, um espaço vazio de tempo no qual o texto poderá permanecer no ostracismo… bom, as variantes são incontroláveis. Como diz meu pai: filho se faz pro mundo; digo eu: informação também.
Nesse percurso o “lucro” se divide entre as partes envolvidas. O leitor é presenteado com um ponto de vista, um artigo que não conhecia (o do Ali Kamel), com o prazer da leitura; o blogueiro irá produzir conectividade: sua “audiência” se encontra com a minha e, feito dois conjutos matemáticos, perceberemos que temos leitores em comum, já os leitores que se diferem poderão ter acesso a uma nova fonte de informação E opinião. Até aqui lucramos eu, o blogueiro parceiro e o leitor. O mesmo se sucede ao amigo do Twitter e, veja bem Ali, até mesmo tu! Ou você acha que não to dando uma moralzinha pra ti falando e linkando teu artigo? Não seria muito mais conveniente deixar sua palavra cair no esquecimento? E repito a pergunta para os jornais e corporações midiáticas: não seria mais conveniente deixar você falando sozinhos? Preferem? Veja, a Google, como outras empresas, já sacaram qual é a do momento: o que o Youtube faz além de abir as portas para qualquer um colocar o que quiser e esperar a audiência crescer? E daí o nobre Ali ainda reclama que as pessoas preferem baixar séries ao invés de ver na TV, argumentando que, dessa forma, em poucos anos a TV não terá mais grana pra financiar esses investimentos. Opa, parece que ele esqueceu até da TV digital e da oferta on demand. Ixi.. parece que ele não sabe mesmo do que está falando!
Mas continuemos. Seguindo essa lógica de raciocínio eu diria que os verdadeiros vampiros são a trupe da Globinho e sua orda. Oras, se somos nós quem damos sentido e valor humano a informação que circula na rede, não estaríamos aceitando esmola quando dizem “olha, filho, pode ler essa notícia de graça, vai”. O problema é velho, a solução é velha: todos falam e todos produzem, então desce do palco, Ali! Gostaria de ver um boicote de dois meses contra todo grande portal de notícias da Internet: ninguém lê, ninguém replica. Seria engraçado eles perceberem na porrada que sem link a rede deles não cresce, sem rede em crescimento não há atenção e, se já tá difícil pra eles conseguirem anunciantes com atenção, imagine sem.
Sabe quando teu amigo pede pra dar uma passada no blog dele e dar uma moral? Daí você fica sem jeito de falar não e passa lá, deixa um comentário bobo e etc. O artigo do Ali Kamel sofre do mal inverso: megalomania.
a internet, por natureza, é um espaço sem dono, livre, democrático. Não é verdade: não existem terras de ninguém.
O que tem prevalecido é uma terra com novos donos que, até aqui, têm tido êxito em chamar de liberdade o que é puro roubo.
Vou ser simples e direto: atenção na rede se cria através de link. Não quer link? Não desce pro play e volta pra tinta no papel. Sem link, sem replicação não há produção de opinião na rede. A opinião necessariamente vai passar pelo processo de pós-filtragem de conteúdo, agregando valor ao material produzido pelos jornais. E a isso, o senhor Ali Kanel, chama de roubo.
Quer ler mais pedrada pra cima do Ali? Passe no Trezentos e de quebra se intere sobre a Conferência Nacional de Comunicação.