Benjamin e a cibercultura – uma complicada relação
Há alguns dias, um post do Trasel pulou no meu leitor de feeds. Era o “Arqueologia da Cibercultura“. Como bom foucaultiano que sou, abri correndo e fui ávido percorrendo o texto com os olhos. De Foucault não tinha nada, mas tinha uma passagem curiosa do clássico texto de Walter Benjamin, “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica“:
Durante séculos, houve uma separação rígida entre um pequeno número de escritores e um grande número de leitores. No fim do século passado, a situação começou a modificar-se. Com a ampliação gigantesca da imprensa, colocando à disposição dos leitores uma quantidade cada vez maior de órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais e regionais, um número crescente de leitores começou a escrever, a princípio esporadicamente. No início, essa possibilidade limitou-se à publicação de sua correspondência na seção “Cartas dos leitores”. Hoje em dia, raros são os europeus inseridos no processo de trabalho que em princípio não tenham uma ocasião qualquer para publicar um episódio de sua vida profissional, uma reclamação ou uma reportagem. Com isso, a diferença essencial entre autor e público está a ponto de desaparecer. Ela se transforma numa diferença funcional e contingente. A cada instante, o leitor está pronto a converter-se num escritor. Num processo de trabalho cada vez mais especializado, cada indivíduo se torna bem ou mal um perito em algum setor, mesmo que seja num pequeno comércio, e como tal pode ter acesso à condição de autor.
Fiquei com isso na cabeça, pois quando li esse trecho alguns dias antes de ver o post de Trasel tive a mesma sensação: Benjamin fala do que vivemos hoje (leia-se: um número que cresce em ordem exponencial de indivíduos assumindo a posição de autores; exemplo disso são os blogs, youtube, twitter, redes sociais, jornalismo cidadão e etc etc etc). Mas fiquei com uma pulga atrás da orelha. “Oras”, pensei cá comigo, “se eu levar pra esse lado vou pirar lendo os clássicos filosóficos, tais como Platão, Nietzsche, Descartes… Quer pior que o Mito da Caverna? Teria Platão previsto a Sociedade do Espetáculo explorada por Debord? Mas são mais de 2.000 anos que separam os dois pensadores! A distância entre Benjamin e nós é bem menor, mas por via das dúvidas resolvi abandonar esse pensamento não auspicioso – tomando licença poética para utilizar o termo da moda.
Poucos dias depois Flávia chega ao nosso laboratório de pesquisa (Labic) com esse mesmo trecho, com a mesma interpretação de Trasel. Tentei argumentar dizendo que, para ser sincero, tenho medo desse pensamento. Mas, na sequência, Malini entrou concordando com ela. Bom, daí já são dois doutores mais uma graduanda contra mim. Resolvi me calar. Mas a pulga continuava atrás da orelha.
Intercom, Rio de Janeiro. Num desses papos descontraídos que misturam lanche e chopp, o assunto surge novamente. Mas dessa vez com uma autoridade a mais na mesa. Ivana Bentes, doutora da Escola de Comunicação da UFRJ foi na mesma linha que Trasel, Flávia e Malini. Minha situação só piorava e via cada vez mais sentido nas teorias de Bourdieu: a pressão dos pares te faz mudar comportamentos. Já são 3 doutores e 1 graduanda. Resolvi empurrar guela abaixo essa interpretação. Até que…
Navegando aleatoriamente por aí (já diria Barabási que não há navegação aleatória, chegaremos lá), encontrei o post “A ideologia do autor“, no blog BaixaCultura (depois desse acontecimento até coloquei eles na blogroll aí do lado). Logo de cara já fui simpatizando com o blog: uma caricatura de Benjamin com a legenda “Walter Benjamin reproduzido tecnicamente”:
Sobre o mesmo trecho, Reuben diz o seguinte:
No ensaio sobre a reprodutibilidade técnica há uma passagem em que W. Benjamin destaca certa transição, um processo de refuncionalização da arte [é sob este ponto de vista que o ensaio trata a questão da tecnologia, em seu papel na refuncionalização da arte e na transformação do sensorium social. Não vá esquecer disso e começar a pensar que W.B. é um pensador da web 2.0!], bem, eu dizia que Benjamin demarca a passagem em que a arte perde sua função ritual (mágica, religiosa) para adquirir autonomia enquanto campo (e se estabelecer como mercado). Uma segunda transição nasceria com a reprodutibilidade técnica da obra de arte, notadamente com a fotografia e monstruosamente com o cinema, por uma série de razões que não vêm ao caso.
A expressão sublinhada é um link no post original (A ideologia do autor) para o post de Trasel (Arqueologia da cibercultura), notoriamente sarcástico. Vendo que havia alguém na face da Terra que estava disposto a questionar o texto de Benjamin, lancei a questão no blog de Reuben:
Você fala de valor de culto e autonomia de campo, termos que me lembram muito Bourdieu. Mas pouco explicou porque Benjamin não é um pensador da web 2.0. Veja, não que seja essa minha interpretação de Benjamin. Mas o fato é que me incomodo com a apropriação do trecho “A exigência de ser filmado” para se referir ao jornalismo cidadão, aos blogs, a web 2.0 e etc etc etc (o Trasel não é o único). Confesso que lendo esse trecho realmente parece que Benjamin é a mãe-Diná da academia alemã, mas não consigo parar de pensar que estou descontextualizando o pensamento do filósofo. E então você me vem com uma crítica a essa interpretação que parece acertar em cheio, mas que deixa muitas lacunas:
“Benjamin destaca certa transição, um processo de refuncionalização da arte [é sob este ponto de vista que o ensaio trata a questão da tecnologia, em seu papel na refuncionalização da arte e na transformação do sensorium social. Não vá esquecer disso e começar a pensar que W.B. é um pensador da web 2.0!]”Agora minhas palavras podem começar a soar de forma equivocada. A exigência de ser filmado ou o leitor na condição de autor deveria, então, ser interpretado como? Uma transição de valor de culto para dinâmica de campo? Ou seja, nesse sentido o leitor estaria isento de sua função contemplativa para se tornar uma polia do espaço social que Bourdieu chama de campo? Seria isso o que Benjamin chama de leitor na condição de autor?
Obs: esse não é um comentário contemplativo. rs. Ficaria grato com uma resposta!
Abraços!
Prontamente e no mesmo dia, Reuben me ofereceu a resposta:
Obrigado pelos comentários! Esse é o tipo de texto que me dá a impressão de não interessar a ninguém, e me dá alguma vergonha publicá-los. Hehe.
Gostei do “esse não é um comentário contemplativo”! Vamos lá:Cara, Bourdieu eu li muito mal e não simpatizo muito, tenho que dizer. Acho que a ideia de campo não dá conta do que é central há algumas décadas (que Foucault vê bem quando diz que o poder atravessa todas as relações sociais e não pode ser fixado ou localizado a não ser transitoriamente, e Debord vê bem quando diz que o Espetáculo é onipresente). Resumindo: o “campo” é só o que é mais visível. O problema é mais embaixo. Mas acho que isso é outro papo, né?
Usei o texto do Trasel como exemplo do que (acho que) não se deve fazer porque foi com ele que me deparei, mas imagino que ele não seja mesmo o único. E o texto de Benjamin permite esse tipo de uso descontextualizado, e a passagem cai mesmo como uma luva. A questão é que a perspectiva é completamente outra: Benjamin NÃO é um pensador das tecnologias, ele é um pensador da modernidade. É dentro dessa perspectiva que a tecnologia aparece, porque é um aspecto central da passagem do séc. 19 pro 20. E essa coisa do leitor na função de escritor é um anseio das vanguardas artísticas do começo do século passado, com as quais WB tinha uma imensa relação. É, no fundo, o desejo de integrar a arte na vida, como quiseram os surrealistas. Daí pro que acontece nos blogs, é um puta deslocamento!
Mas eu preciso dizer o seguinte: não sou contra o roubo de parágrafos ou as citações descontextualizadas. Só que é preciso demarcar isso, dizer que, embora o parágrafo caiba perfeitamente e pareça que Benjamin esteja fazendo “arqueologia das novas tecnologias”, ele NÃO está falando disso, a preocupação dele é completamente OUTRA, e o uso que se está fazendo da passagem é desviado, é um uso da formulação da frase, e não do pensamento de WB.
Mas isso é um problema da Comunicação. Qualquer disciplina de teoria da comunicação vai usar a Escola de Frankfurt como escola do “pensamento comunicacional”, quando aqueles caras são outra coisa. Se a gente aprende a entender mal quem são os caras, como é que se vai entender bem o que eles escreveram?Não sei se ajudei ou piorei as coisas.
Valeu pelo papo e apareça!
[Pensando que dificilmente alguém chegará a essa parte do texto, não me incomodarei mais com o tamanho que ele vai ficar - que chegou até aqui é porque também tá muito intrigado com isso. Mas chega um momento que a coisa precisa de alguma conclusão.] Reuben pontua algumas observações interessantes, que eu destaquei em negrito. Veja, Foucault fala de dispositivo, de diagrama; Bourdieu fala de campo, de autonomia, de habitus; Deleuze fala de linhas, rizoma, corpo sem órgãos, esquizoanálise. São todos conceitos que, de uma forma ou de outra, adotamos para tentar entender e/ou modificar o espaço que nos cerca. Benjamin tem lá seus conceitos, dentre os quais a aura é o mais famoso. Nossa capacidade associativa junta os pontos dos nós e vai tecendo uma rede de idéias que, como toda rede, é formada de nós e ligações.
Venho lendo com bastante dedicação o livro “Linked” de Barabási, através do qual, talvez, consiga achar uma forma de me confortar com tudo isso. Tudo está conectado. A teia da vida? Um termo bem brega, mas eficaz. Da vanguarda artística européia para milhões de indivíduos como Reuben, Flávia, Malini, Ivana, Trasel, eu… de frente a uma máquina que se liga a outras. Exceto Ivana, que foi um contato pessoal; logo, rede que atravessa rede. Talvez clusters? O fato é que de alguma forma e com poucas ligações Benjamin chega até nosso pensamento quando se trata de Cibercultura – cabe ainda questionar a inovação filosófica que ele traz. Fábio Gouveia acabou de entrar na sala. Ops. Um novo nó na rede. E já soltou: Maurício (orientador de doutorado de Fabio e um novo nó nessa rede) falava que Benjamin é o primeiro filósofo a tratar da imagem. Me lembro então de Deleuze, uma simples frase: Somos dois e já somos muitos. Fácil entender, mas cada vez mais enigmática. Veja quanto já somos nesse texto. Reuben, Flávia, Malini, Ivana, Trasel, Foucautl, Platão, Nietzsche, Bourdieu, Barabási, Fábio e eu. Devo ter esquecido de alguém. Somos 12 (claro que alguns são grandes hubs) , mas somos muito mais. Quanto mais eu prosseguir com esse texto, mais nós entrarão na conversa, pois trata-se na verdade de encontrar o caminho que liga a frase “Arqueologia da Cibercultura” ou “Benjamin e a Colaboração” e o texto que Benjamin escreveu em 1936. Esse caminho é tecido por nós e mais nós, ligações e mais ligações. Concluindo? O discurso de que Benjamin pensa as novas tecnologias está presente, ainda que eu continue confuso com isso.







Benjamin é um pensador que vai permanecer por muito tempo. Ainda é difícil conceber a arte um passo à frente de sua análise.
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Belo texto, cara. E eu não sabia que estava discordando de tanta gente ao mesmo tempo! Hahaha. Abraço.
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Fiquei com preguiça de ler até o final, uma vez que vc ja tinha me falado um monte disso pelo gmail =)
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