As linhas da cidade

2009 July 14
postado por Thalles Waichert

Hoje fui lá no longe. Na verdade foi um pouco depois do longe. Um hora e quarenta minutos pra ir, uma hora e meia pra voltar. O bacana não é o motivo, o lugar ou o senhor importante com quem fui conversar. Os senhores importantes tem peculiaridades, mas de uma forma geral ou são chatos ou são legais. Enfim, o bacana desse dia de proletário com direito a passagem de ida na via T. Campo Grande e de volta no Serra é exatamente um tema que muitos já falaram: as personalidades do Transcol. Mas eu, pra variar lá lá lá, quero abordar de uma outra forma;  é sempre de uma outra forma.

Tenho lido muito Deleuze e Guattari, vamos começar assim porque aí já assusta quem é pra assustar e interessa quem é pra interessar. Mas o muito não é tanto assim; só terminei de ler o primeiro volume de Mil Platôs. E eles falam muito de estrato, território, desterritorializações, reterritorializações. Mas também não quero me prender aos conceitos. Às vezes acho eles geniais, mas às vezes me irritam. Pra tudo quanto é lado que olhava dentro do ônibus só via pessoas estratificadas, desterritorializadas, atravessadas pelo território do ônibus. Um senhor com aparência de roceiro carregava uma sacola com umas plantas, estava com um chapéu característico. Ao lado um sujeito com a camisa do IBGE. Em pé, logo a frente, um tatuado marombeiro. Mas como eu disse, não é dessa diversidade que todos falam que eu gostaria de falar.

O que eu vi foram rastros através dos estratos. Coincidência ou não, veja: ao ir de transcol para casa passo por uma padaria que gosto. Mas quando tenho alguma entrevista em bairros mais caros de Vitória, passso por outras padarias que são muito melhores; e mais caras. Fantasiei a situação na qual o padeiro decide construir sua padaria em determinada rua porque determinado ônibus passa por ali; e mais: porque aquela rua vai dar em um lugar nobre do bairro ou não e etc. Ele está olhando as pegadas na rua: são lobos? cachorros? mamutes?

A cor da cidade não é cinza então! As edificações podem ter a predominância do cinza; se olhar numa fotografia aérea ela é cinza. Mas os rastros que vão colorir essa cidade não a deixam cinza mais. Algum desafortunado poderia dizer que ela seria, então, marrom – que é a cor da pobreza. Mas também não é marrom. Ela é muito colorida. Eu gostaria de pintar um quadro da cidade. O quadro iria ter muitas cores representadas apenas através de linhas – umas espessas, outras delgadas, mas nenhuma parelela. Todas iriam convergir em algum lugar, seja no próprio quadro, seja num ponto de fuga; gostaria que todas convergissem num ponto de fuga, pois dessa forma a cidade seria o que vemos: rastros de lobos e rebanhos soltos que parecem bem separados. Mas se procurar seguir uma linha qualquer irá ver que ela está ligada a qualquer outra que queira convergir. A dúvida é qual rastro estará no encontro: um lobo? um cordeiro?

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