A gagueira da multiplicidade ou a cultura do “E”
Tenho a impressão de que se não fosse pelo prazo jamais teria terminado a monografia. Poderia ficar escrevendo, escrevendo e escrevendo, pois a cada vez que releio algum texto que por esquecimento não utilizei me deparo com ótimos pensamentos. Mas se trata, talvez, de passar o recado muito mais do que ecoar vozes toda essa coisa de monografia. É aqui onde faço eco de vozes.
Gosto muito de uma parte do livro Cauda Longa (aos que detestam peço paciência, pois a parte boa do post vai chegar) na qual Chirs Anderson fala de algo chamado “cultura do e”. Trata-se de um
reequilíbrio da equação, uma evolução de uma era “ou”, de hits ou nichos (cultura dominante vs. subculturas) para uma era “e”. Hoje, nossa cultura é cada vez mais uma mistura de cabeça e cauda, hits e nichos, instituições e indivíduos, profissionais e amadores. (pág. 180)
Hoje, relendo uma entrevista em Conversações na qual Deleuze fala sobre “Seis vezes dois” de Godard me deparei com ótimos trechos sobre multiplicidade e, por incrível que pareça, o tal do “E” (a tal da parte boa do post):
o E já não é nem mesmo uma conjunção ou uma relação particular, ele arrasta todas as relações; existem tantas relações quantos E, o E não só desequilibra todas as relações, ele desequilibra o ser, o verbo…, etc. O E, “e… e… e…”, é exatamente a gagueira criadora [...].
Certamente, o E é a diversidade, a multiplicidade, a destruição das identidades. [...] A multiplicidade está precisamente no E, que não tem a mesma natureza dos elementos nem dos conjuntos. (pág. 60)
Pra explicar: quando Deleuze fala em gagueira criadora se refere a uma crítica feita por ele mesmo a teorica informática, que estrutura a comunicação em três elementos: informação pura, ruído e redundância para compensar o ruído. Deleuze contrpõe: a reundância seria a informação sempre transmitida, ao passo que a informação seria um mínimo ideal de conteúdo; abaixo de tudo a gagueira.
Mas é fantástico o ponto em que ele destrói a identidade através do E, pois é exatamente o que busco em meu trabalho: não há o blogueiro. O que é ser blogueiro? A pergunta simplesmente não faz o menor sentido. Não se trata de ser, é preciso eliminar esse verbo para compreender a blogosfera. Linguagem da blogosfera? Bem, daí vem outra pedrada:
A linguagem é um sistema de comando, não um meio de informação. (pág. 55)
Oras, por essas e outras que repito: não quero estruturar a linguagem blogueira. Não quero nem mesmo propor uma linguagem blogueira; se o faço é por falta de um termo melhor. Quero apenas ver as intensidades que passam pelos posts, a quem eles servem e se servem pra alguém: uma pragmática? Talvez…






