… senão sufoco

2009 November 10
postado por Thalles Waichert

Voltemos, então, a um ponto demasiadamente cedo abandonado. Ali no topo do blog, como podem ver, há uma pequena mudança retrógrada no que diz respeito a linha do tempo; mas, sem sombra de dúvida, progressiva num ponto de vista mais pessoal. Essa frase sempre fez com que me remexesse na cadeira: um pouco de possível, senão sufoco. Me colocava a pensar o que leva Foucault, no alto de sua produtividade e genialidade, enunciar uma frase como essa. Sim, pois não se trata de uma fala desproposital; trata-se de um enunciado muito bem articulado… palavra a palavra. Mas não é sobre a inquietação de Foucault que gostaria de escrever; tenho certeza que ela ainda me renderá muitos posts e muitas horas de reflexão.

Gostaria de me situar no enunciado foucaultiano como se ele partisse de mim, guardada as proporções, claro. Falo agora abertamente que a reprovação no mestrado de comunicação da UFRJ mexeu muito mais comigo do que eu esperava. Confesso também que, como alguns de meus amigos, me surpreendi com o resultado que me colocou diante de um impasse gradativamente mais assustador. Eis o primeiro e mais simples (ou nem tanto): como me sustentar? Embora tenha construído um curriculum que desperta admiração em muitas pessoas, de longe não é o que as empresas buscam (mesmo as voltadas para o meu ramo de atuação). Ainda há um segundo agravante: meu desejo produtivo parece estar todo direcionado para o ensino; repito o que já disse aqui tempos atrás de uma forma melhor elaborada: não me vejo totalmente satisfeito no campo profissional se não for dentro de um sala de aula, seja como aluno, seja como professor. Os meus truques de sedução não encantam as empresas…

Sempre senti uma sensação indescritível quando tive boas idéias e, durante minha adolescência, me iludiram dizendo que sou criativo e escrevo bem. Fiz jornalismo e descobri após quatro anos de curso que não gosto do texto jornalístico, embora minha segunda descoberta foi que eu realmente gosto muito de escrever. E nesse ponto as empresas chegam a virar o nariz para mim. Começa assim: 1) pesquisas em cibercultura e blogosfera: hum… bom isso! revela que você é inovador, criativo e produz algo nunca antes feito; 2) você quer ser professor? hum… beleza; 3) você gosta de internet e de escrever? mas não te falaram que internet é algo puramente visual? quem trabalha com internet é design, publicitário, programador… não jornalista!!

Nesse ponto volta Thalles para casa, sempre com o rabo entre as pernas, para jogar frases soltas no Google. Dentre uma dessas buscas encontrei uma oportunidade que esteve sempre aqui ao lado e nunca vi. Segue um trecho do que me fez pensar “um pouco de possível, senão sufoco” aplicado na minha própria vidinha banal:

Dizemos que as palavras representam as coisas. De um lado, concebemos um real-mundo como “coisa” e, de outro, a linguagem-signo como “palavra”, instância representativa em relação direta de correspondência simbólica com a primeira. As palavras existem naquilo que nos dizem das coisas. [...] A questão que deve guiar-nos é, portanto, do estatuto da linguagem e do pensamento: como fazê-los escapar da forma da representação e estabelecer com o real um cruzamento que não seja mais de filiação, conformidade ou correspondência?

Trecho extraído da tese de doutorado de Júlia Almeida: Pragmática e Agramatical em Deleuze

As perguntas vão se desdobrando na minha cabeça feito uma inquietante obsessão: como voltar nosso olhar para a blogosfera buscando sua legitimidade enquanto corpo autônomo? Que enunciados ela produz que a conferem esse estatuto? Como escapar dos paralelismos comparativos blogosfera-mídia, blogosfera-literária, blogosfera-política e encontrar seu sentido próprio? São questões que me direcionam ao que tenho buscado: uma alternativa, um possível…

Mas ainda busco emprego, pois não tenho bolsa nem de IC mais…

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