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Jun/10

26

Em Porto Alegre

Como bom aficionado em séries televisivas (e já adianto que Dexter é minha predileta) vejo a vida em temporadas. Dia desses, fazendo os cáculos enquanto gastava minutos a fio debaixo d’água, me dei conta que minha vida seriada entra em sua quarta temporada. Explico.

Como tudo na vida só começa realmente a partir do momento em que nos propomos a experimentar o mundo por conta própria, aponto o momento em que saí da casa dos meus pais, na pacata e bela cidade de Guarapari (ES) para estudar em Vitória, capital capixaba. Na ocasião não foi lá grandes aventuras: havia passado no vestibular da Ufes, estava indo morar na casa de um tio-avô ao bom estilo Peter Parker de ser. Os primeiros semestres na universidade foram tateados às cegas, mas tudo era muito inusitado e divertido. O mundo era Vitória.

Certo dia me encontrei com um professor que se tornou responsável pelo início da segunda temporada. Fábio Malini me convidou para constituir um grupo de pesquisa em cibercultura no Departamento de Comunicação da Ufes. Me apaixonei por pesquisa acadêmica e iniciei ali dois anos de uma proveitosa temporada. Amizades que ficam, experiências inesquecíveis. O Labic (nome de nosso laboratório) me mostrou que o mundo não era Vitória. Havia muito além: São Paulo, Santos, Rio de Janeiro, Campinas, Natal…

O próximo passo estava marcado e cronometrado. Como um salto preciso, entraria em minha terceira temporada rumo ao mestrado na UFRJ. Havia uma calorosa torcida pelo meu sucesso, que se manifestou com ainda mais vivacidade após o resultado da primeira fase: 9,7 na prova teórica. Revirei todos meus artigos, meu TCC e meus livros para escrever o melhor projeto que conseguisse. Estava deveras confiante. Tão confiante que dessa vez foi preciso uma nova lição: o mundo não é Vitória e as coisas não acontecem segundo meus planos por mais seguros e calculados que eles sejam. Meu mundo caiu, meus amores me seguraram. Junto a essa dolorosa mensagem veio a mais importante lição que havia aprendido com meu já finado tio-avô, mas por acreditar que a força de vontade e o raciocínio podem mover montanhas acabei deixado-a de lado: eu sou muitos. E aqui, já fazendo uma ligeira conexão com uma corrente filosófica deleuziana, diria que “um só já são muitos”. Foi preciso interromper o incessante olhar esquizo para concentrar-me em algo que realmente valesse a pena. Foi preciso, por um instante, ser Zaratustra.

Nesse meio tempo encontrei conforto nunca antes visto em família. O tempo que talvez tenha “perdido” por estar sem objetivo e com os livros encostados, ganhei fortificando minhas bases. Em um bate papo com uma profissional por quem tenho grande admiração, Ana Brambilla, recebi um convite irrecusável, mas que a principio recusei de susto. Ela me convidou para um trabalho temporário no portal Terra, na editoria de mídias sociais. Eis que tem fim a terceira temporada ao dizer “sim, eu aceito o convite”.

A quarta temporada começa assim, num quarto de chão de taco, com uma vista para uma bela árvore verde-amarela de folhas caídas. Começa com algumas lágrimas de pai, mãe e prima-irmã no aeroporto. Com a namorada dizendo “vou com você para te ajudar” e encarando todo o medo de voar que ela tem. Não são muitos os personagens, mas cada um deles já são muitos.

Em tempo: esse foi um post necessário. Gostaria de ter feito um post inaugural anteriormente. Até mesmo cheguei a rabiscar alguma coisa. Mas prefiro pensar que quando a coisa é boa nunca se sabe onde começou, nunca foi pedido para começar. Simplesmente começou. Ainda assim prometo um próximo post mais explicativo com a proposta desse blog. Talvez no fundo eu devesse esse post como inaugural a essas poucas-muitas pessoas. Ou talvez o devesse para mim mesmo.

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